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Blog do Raulison!

Quem vai dizer o que eu vou ser amanhã?

Ética - David Hume

 

Sobre a gênese da moral a partir das paixões humanas, segundo David Hume

Por Raulison Mendonça – UFPR

 

 

Ainda no berço do mundo, o exemplo

De geração-em-geração, o entendimento

Tudo o que já foi palavra tornou-se escrita

Traço e símbolo: sinfonia que tudo registra!

 

Ora! É o costume ― essa herança das conformações de nossos pais  ― um sopro latente que transita licenciosamente em nossos espíritos. Estamos impregnados de toda história universal. Há em nós o movimento dos séculos, e estar no mundo, é passado; posto que brevemente, apenas que uma pequena engrenagem do universo se mova, e somos história. Aqui estamos para logo sermos essa nova força para este misterioso sopro, este mesmo que nos permite estar no mundo em companhia de outros homens.

Será obra da especulação, ou basta que observemos com a devida atenção, para vermos que antes mesmo da fala, se é que houve um tempo em que nos faltou essa aptidão, há uma tendência natural para seguirmos uma ação coletiva? Uma criança não apenas acompanha seus pais, mas lhe imita os gestos. E tão logo domine alguns de seus músculos faciais e aguce o seu entendimento, imitará a sua fala. E essa fala será acompanhada dos mesmos gestos de seus parentes mais próximos. Uma multidão num estádio é um exército coeso de movimentos e canções. Num teatro raramente ouvimos palmas e vaias entrelaçadas. Há uma comunhão entre os espectadores, e logo após um ato qualquer, ressoam ou palmas, ou vaias, como se um só homem houvesse dado a sua aprovação ou censura. Mesmo que o sentimento individual tenha sido extasiante para uns, moderados para outros, ou ainda que algum outro não tenho aprovado de todo o que viu e ouviu, quando surgem as palmas, todos são impelidos a compartilhar desse louvor. Estando na presença de alguns amigos, ao ouvir histórias engraçadas, mesmo não achando graça alguma, nos forçamos ao riso quando percebemos que eles riem. Sendo assim, talvez possamos afirmar que a força maior do costume está no exemplo, mais do que no entendimento, na palavra e na escrita. Esta última, que permitiu aos filósofos tantas especulações e discursos abstrusos, que deixou a pena ao gosto do historiador, que outorgou os profetas e seus delírios, e concedeu ao poeta a eternidade de suas paixões; à escrita, ainda lhe falta o vigor dos milênios. Pois o homem, habituado que está a contemplar o mundo, não se volta com o devido cuidado às letras. Por outro lado, a palavra comove multidões. Mas ao arrastar um povo para a sua desgraça, ou para promover os caprichos de um homem eloquênte, ela mesma se enredou em caminhos de confusão. À palavra, lhe falta a clareza das intenções. Que se faça uso da escrita ou da palavra, sem entendimento, é o mesmo que escrever na água, ou o mesmo que falar ao vento. Por fim, resta-nos o exemplo, ou a ação, que tem como propriedade inata o movimento. E o próprio movimento é intenção. Ou seja, o exemplo, aliado a repetição, é o mais básico sistema de formação de um costume, acessível até a outros seres desprovidos de capacidade intelectual, o que prova a necessidade mínima do entendimento. A força do exemplo possui o vigor dos milênios, carrega consigo o princípio da sobrevivência de nossa espécie.

Essa conclusão nos interessa neste ensaio, porque David Hume pressupõe a gênese da moral a partir das paixões humanas, fazendo da moral um sistema de aprovação ou censura coletivos. Sendo o costume aquilo que percorre nosso espírito desde os nossos antepassados, é tudo o que está contido nele que compartilhamos com os outros. Quando nos demos conta do mundo, já não estávamos sozinhos. Olhando para o lado foi possível ver muitos outros iguais a nós. Chegando perto deles, percebemos que outros homens era passíveis das mesmas impressões. Hume afirma estar ao lado do “senso comum e da razão”1. Ou melhor, que o pressuposto da sua teoria se firma naquilo em que os homens compartilham entre si, sem a intervenção dos discursos confusos. Fui buscar no exemplo a formação do costume, porque é justo nele que está o juízo coletivo. É a anterioridade do exemplo, o entendimento de um com o outro, uma extrema convivência de um com o outro e mais as semelhanças das percepções e paixões que fecundou a conformidade dos juízos em toda a espécie.

“...é provavel, eu dizia, que essa sentença final (que julga caracteres e ações como amáveis ou odiosos, louváveis ou repreensíveis) se apóie em algum sentido interno ou sensação que a natureza tornou universal na espécie inteira. Pois que outra coisa poderia ter uma influência desse tipo?”2

Ora, toda a lei moral que chegou até nós, foi antes experimentada por nossos pais, pelos pais dos nossos pais e assim por diante. É possível observar o mundo e observar a si mesmo, para ver quais sentimentos contemplamos igualmente com outros homens. As paixões naturais, diversas entre os seres humanos,  são aquelas obrigações naturais pela qual nos sentimos  determinados a uma ação qualquer. Mas toda a obrigação natural é contraposta a uma obrigação moral. Há uma interposição entre o juízo e a ação. E se a determinação da natureza, ou a vontade e o desejo naturais, fossem sentidas por um único homem habitante no planeta, nada lhe impediria de agir em favor de suas paixões, suas ações seriam amorais. Todo o sistema moral é construído a partir da convivência entre os homens. O fato de não estarmos sozinhos no mundo, e de termos a companhia de outros seres da mesma espécie em alta estima é que faz de nós um animal social, não por obrigação, mas pelo apreço que temos da presença um do outro. E se não houvesse em nós nenhuma apreciação da vida social, não teríamos, desde a antiguidade, nos identificado a um sistema comum que nos prometesse a paz.

Mesmo na ausência da linguagem é possível compartilhar de um sentimento comum, apenas apreciando uma ação qualquer. É a ação anterior a fala, pois é possível que multidões executem o mesmo movimento sem nenhum comando de voz, apenas imitando o exemplo de um homem. Mas, ou por ordem divina, começando por Adão a dar nomes a tudo o que via, ou por um estalo da natureza, que por um capricho outorgou somente a nós essa aptidão, a linguagem se firmou de tal modo em nossos espíritos, que hoje somos incapazes de imaginar um mundo sem fala, sem nomes, sem um significado das coisas que vemos e sem o significado dos sentimentos e afecções. Se é a linguagem a normatização do mundo material, daquilo que vemos e desejamos aplicar um nome comum para entendimento mútuo, é também ela responsável pelos significados daquilo que compartilhamos no espírito. E quando ouvimos das virtudes e dos vícios de um homem, já em nós sentimos complacência ou aversão, quando nos imaginamos em sua presença. Como a virtude e o vício derivam de um comportamento percebido por outros, é na ação e no exemplo que aprovamos ou censuramos moralmente. Independente da linguagem que herdamos, os sentimentos coletivos, as virtudes e os vícios mais gerais são igualmente compartilhados por todos os homens.

“Pode parecer uma tarefa supérflua provar que as afecções benevolentes ou mais gentis são estimáveis e que, onde quer que apareçam, granjeiam a aprovação e boa vontade dos seres humanos. Os epítetos de “sociável”, “de boa índole”, “humano”, “compassivo”, “grato”, “amistoso”, “generoso”, “benfazejo”, ou seus equivalentes, são conhecidos em todas as linguagens e expressam universalmente o mais alto mérito que a natureza humana é capaz de atingir.”3

A benevolência, uma disposição dos homens que anseia o bem social, carrega em si o mérito da simpatia. Pois nossos olhos são atraídos a uma ação proveitosa, mesmo que não sejamos atingidos diretamente por ela. Uma atitude benevolente agrada aos espectadores, tem a sua aprovação, e recíprocamente coloca neles uma disposição para o mesmo fim. Alcançar a estima dos homens e ser tomado em alta conta por nossos mais próximos, nos faz perseguir as ações que agradam os seres humanos e que lhes são úteis. “As virtudes sociais não são nunca consideradas separadamente de suas tendências benéficas, nem vistas como estéreis e infrutíferas. A felicidade da humanidade, a ordem da sociedade, a harmonia das famílias, o apoio mútuo dos amigos, são sempre considerados como resultado do suave domínio dessas virtudes sobre os corações dos seres humanos.”4 Os vícios e virtudes que se apresentam a nós e que tocam nosso espírito recebem imediatamente reprovação ou louvor. E quando na presença de muitos olhos, sabemos que haverá ali um julgamento. Há um disposição geral em nós, sendo que não estamos isentos das impressões do mundo, de julgar uma ação qualquer e compartilhar da aprovação ou da censura com os demais.

“Seria supérfluo provar que a justiça é últil à sociedade e, conseqüentemente, que pelo menos parte de seu mérito deve originar-se dessa consideração”5 . Todo o homem, quando convencido da justiça que lhe é aplicada, sendo ela benéfica ou não à sua intenção particular, carrega no coração a sensação da justiça, porque foi ela mais últil à socidade do que o seu fim individual.

“As regras da eqüidade ou da justiça dependem, portanto, inteiramente do estado e situação particulares em que os homens se encontram, e devem sua origem e existência à utilidade que proporcionam ao público pela sua observância estrita e regular.”6

Na natureza encontraremos cavernas, montanhas, matas fechadas, terras virgens para o plantio, frutos no alto das árvores e água potável a grandes distâncias. O mundo não participa da intenção dos nossos confortos. Mas com o manejo das ferramentas e engenhosidade de nossas criações, podemos extrair tudo o que é preciso da natureza e gozá-los no conchego de nossas invenções. Nos daríamos ao estudo e trabalho árduo da pesquisa e da técnica, se não houvesse em nossas criações utilidade alguma? Deriva daí também o senso da propriedade, da divisão daquilo que é público e privado. Daquilo em que toda a sociedade tem acesso, e aquilo que é justo de um homem, que no labor dos dias e no uso correto do que lhe caiu nas mãos, prosperou diligentemente, e pode agora, com a aprovação dos homens, gozar da sua particular recompensa. Compartilhamos da riqueza dos outros, primeiro porque a desejamos em certo grau para nós mesmos, segundo porque sentimos em nós a sensação do conforto alheio. Participamos dos mesmos sentimentos de aprovação e censura. E quando um homem bem sucedido é apresentado a nós como benevolente e justo, dividimos com ele o prazer de sua companhia. A moral, herança de todas as ações mais remotas do nosso mundo, se apresenta a nós como esse resultado de todas as experiências vividas por nossos antepassados. A simpatia que temos por uma boa ação, é porque ela se tornou últil no tempo, é benevolente no espírito, e traz em si a noção de justiça, pois o que é justo não é mais do que o empirismo latente do passado que se acomoda em nossos corações.

“Do mesmo modo que na sociedade os mútuos conflitos e antagonismos de interesse e auto-estima forçaram a humanidade a estabelecer as leis da justiça para preservar as vantagens da mútua assistência e proteção, também as eternas contrariedades devidas ao orgulho e à presunção dos seres humanos levaram à introdução, na convivência social, das regras de boas maneiras ou polidez, para facilitar o trato dos espíritos em um tranqüilo relacionamento e comunicação”7

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bibliografia

 

Investigação sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral, David Hume, Ed. Unesp

1.      Seção 1, Pág. 226 § 2

2.      Seção 1, Pág. 229 § 9

3.      Seção 2, Pág. 233 § 1

4.      Seção 1, Pág. 240 § 22

5.      Seção 2, Pág. 241 § 1

6.      Seção 2, Pág. 247 § 12

7.      Seção 8, Pág. 337 § 1

 

 

Filosofia Política - Maquiavel

Por Raulison Mendonça – Estudante de Filosofia UFPR

 

 

 

“Todos os profetas armados venceram e os desarmados fracassaram. Porque, além do que já disse, a natureza dos povos é vária, sendo fácil persuadí-los de uma coisa, mas sendo difícil firmá-los na persuasão. Convém, pois, providenciar para que quando não acreditarem mais, se possa fazê-los crer à força.”

 

 

É deste parágrafo, acima descrito, que faremos um pequeno ensaio daquilo que nos legou um dos fundadores da ciência política, Nicolau Maquiavel. Pelo que devemos a experiência dos anos: a reflexão e a rígida leitura e interpretação dos filósofos; não me tomem por insolente, mas considerem sim a ingenuidade de alguém que ainda carece do adestramento dos tempos. É de certo que me empenho por me fazer entender naquilo à que me proponho, e por esse esforço é que vos peço a compreensão, e claro, que me seja corrigida qualquer falha, visto que a sabedoria não se dá no egoísmo das idéias, mas na virtude do saber solidário, aqueles juízos que os homens doam ao mundo.

Inúmeras biografias de Maquiavel se encontram nos mais diversos meios, portanto, sendo tão fácil o acesso a essas informações, não deixei espaço aqui para comentar de sua vida e feitos. Mas farei sim, antes de iniciarmos nossa busca de entendimento do texto a que nos referimos, algumas considerações sobre o alcance de sua obra, ou melhor, à quem se presta o teor de seu livro, “O Príncipe”. Pois, claro está, pelo que vemos nas livrarias, bancas de revistas e comentários eletrônicos, que andam a diluir o seu pensamento para apenas capitalizar lucros, retirando proposições isoladas de seu contexto, como o que muito é feito com as “Sagradas Escrituras”, da qual, cada um a seu modo e interpretação funda uma nova seita, prescrevendo significados segundo as suas paixões.

Comecemos por investigar o título do livro, “O Príncipe”, e a quem foi dedicada a obra. “Príncipe”, quer dizer: “filho ou membro de família reinante; filho primogênito do rei; herdeiro presuntivo da coroa; chefe de principado; soberano”. E no início do livro há uma dedicatória com o título: “Ao magnífico Lorenzo, filho de Piero de Médicis”. Ora, dada a significação daquilo que exprime por si só a palavra “Príncipe”, e mais o início da dedicatória, “As mais das vezes, costumam aqueles que desejam granjear as graças de um príncipe trazer-lhes os objetos que lhe são mais caros, ou com os quais o vêem deleitar...”, nos força crer que o autor dos escritos, de posse desses significados e convencido da natureza dos homens e das relações sociais e classes a que estão dividos, ofereça a sua obra a homens que, ou por herança ou por força ou por sorte, pretendam ou tenham nas mãos a responsabilidade de fundar, ou conquistar ou manter um Estado. Não fosse isso, Maquiavel poderia ter dado outros títulos a sua obra: “Dos Homens”, “Do Viver e Conquistar”, “Do Sucesso Segundo os Meios”, “O Poder para Executivos”, “O Poder para Mulheres”, “O Poder para Jovens Promissores”, “Potência para Plantador de Batatas”... E por aí derivaríamos inúmeras possibilidades descabidas e sem nenhum sentido, visto que sua obra transcende a vida mediana, não sendo possível refletir suas palavras senão aos governantes, e jamais a servos, fazendeiros ou empresários.

“Cederíamos à mesma ilusão que a maioria dos intérpretes, imaginando que a natureza do homem decide acerca da natureza das relações sociais. As declarações de Maquiavel sobre a natureza humana só assumem todo o seu sentido nos limites de um argumento particular; e, por esta razão, são freqüentemente contraditórias.” (As Formas da História, Claude Lefort, Ed. Brasiliense, p. 145).

E ainda no mesmo parágrafo Lefort complementa:

“Inconstância ou fidelidade, ingratidão ou disposição ao sacrifício, são traços que se desenham em condições políticas particulares. O que importa a nosso autor não é, pois, a natureza humana, tomada em si mesma, é a divisão de um desejo que só se forma no estado social ou, mais justamente, o estado político (onde há Cidade)...” (idem...)

Considerando os dois trechos acima, concluimos nossa primeira investigação, certos de que Maquiavel, no seu discurso, formula os seus argumentos para um público muito restrito, descrevendo um comportamento particular ou de um povo apenas como um recurso a que um príncipe deve estar sempre atento, já que governará homens e não outra espécie da natureza.

Caberia aqui mais argumentos e exposições sobre o tema, mas não é esse o sentido deste ensaio, cumpre-nos agora a tarefa de comentar o parágrafo inicial do trabalho, que repetirei aqui somente pela necessidade de visulizá-lo estéticamente com algumas marcações:

 

 

“Todos os profetas armados venceram e os desarmados fracassaram. Porque, além do que já disse, a natureza dos povos é vária, sendo fácil persuadí-los de uma coisa, mas sendo difícil firmá-los na persuasão. Convém, pois, providenciar para que quando não acreditarem mais, se possa fazê-los crer à força.”

 

 

Esta passagem está no capítulo VI, Parágrafo 6, do “O Príncipe”. Façamos um rápido comentário do que foi abordado por Maquiavel nos capítulos anteriores. Muito sucinto, ele diz sobre “Os vários tipos de Estado, e como são formados”. Neste primeiro capítulo ele afirma que “Todos os Estados que existem e já existiram são e foram sempre repúblicas ou principados”. Mas concentra seus comentários apenas nos tipos de principado, que, como já foi dito acima, ou são hereditários, ou adquiridos pela força ou por sorte. Nos próximos capítulos o filósofo vai analisar mais detalhadamente as monarquias hereditárias e as monarquias mistas, e nos capítulos IV e V, vai discorrer sobre a manutenção do Estado, ou como preservá-lo desde os vários modos que este caiu nas mãos do Príncipe. É interessante notar que no capítulo VI há uma mudança nos rumos do discurso, que não mais se dará aos tipos de monarquia ou os modos de resguardá-las, e sim, aos Estados novos, conquistados “com valor” e “com as próprias armas”.

Voltemos ao texto principal.

 

“Porque, além do que já disse...” ― Pois bem, o que quer dizer Maquiavel, quando se refere ao que já disse? ― No capítulo a que se dedica aos estados novos, o autor fará frente aos conceitos que pretende inserir no contexto da sua obra: a Virtú, a Fortuna e a Ocasião. “Para Maquiavel, a virtú, conceito poliedrico, é a “qualidade do homem que o capacita a realizar grandes obras e feitos”, o “poder humano de efetuar mudanças e controlar eventos”, o “pré-requisito da liderança”, é a motivação interior, a força de vontade que induz os homens, individualmente ou em grupo, a enfrentar fortuna, a deusa que forma o contrapeso da virtú. A fortuna é o acaso, o curso da história, o destino cego, o fatalismo, a necessidade natural. / Virtú e fortuna serão os dois pólos entre os quais se desenrolará a ação política. A ação inere ao cerne do pensamento de Maquiavel, e o homem de ação será a ponte que intermediará virtú e fortuna.” (In: O Pensamento Político de Maquiavel, Marcílio Marques Moreira, Ed. Universidade de Brasília, 1980).

Delineados os conceitos de virtú e fortuna, entenderemos melhor à que o autor se referia quando da frase “além do que já disse”, visto que para obter êxito, é preciso conciliar essas forças, virtú e fortuna, com a occasione, ou seja, a oportunidade. O filósofo elege alguns nomes para exemplificar seu argumento, e são eles Moisés, Ciro, Rômulo e Teseu. E sobre eles comenta: “Examinando sua vida e seus feitos, veremos que nada deveram à sorte, a não ser oportunidade ― matéria que moldaram de forma própria. Sem essa oportunidade, seus valores não teriam sido aproveitados; sem estes, a oportunidade teria sido vã” (O Príncipe, Cap. VI, § 3). O autor ainda vai além, expondo os motivos de cada personagem. Era preciso que Moisés encontrasse o povo de Israel oprimido, escravizado e disposto a escapar à servidão, seguindo-o; que Rômulo fosse abandonado para que depois se tornasse fundador e rei de Roma; que Ciro encontrasse os persas aborrecidos com o domínio dos Medas; e por último, que Teseu tivesse encontrado os atenienses dispersados. À quem a oportunidade se expôs, tendo eles dominado a virtú e a fortuna, conseguiram, mesmo com dificuldades, fundar um novo Estado. Mas ainda há uma outra passagem que complementa o entendimento da frase mencionada, e que está no mesmo parágrafo do texto principal: “...faz-se necessário, portanto, verificar se os inovadores são independentes ou não; isto é: se para executar suas obras precisam pedir ajuda a outrem, ou se podem impor-se pela força” (Cap. VI, § 6). Ora, uma referência possível, que é chave para a fundamentação do que virá a ser dito, é que a virtú deve legar a esse tal inovador uma grande reputação, ou seja, potência (autoridade) para realizar seus propósitos.

 

“Todos os profetas armados venceram e os desarmados fracassaram” ― Maquiavel quer nos fazer refletir sobre a força das armas. Pois é visto que no decorrer da história, de joelhos os povos se perderam, e armados se impuseram, ou na defesa de suas terras, ou na fundação de seus Estados. “A única conclusão positiva que podemos reter é que o fundador deve preferir a força à prece, que os profetas armados triunfam ali onde fracassam os profetas desarmados” (O Pensamento Político Clássico, “Sobre a Lógica do Poder”, Claude Lefort, p. 42). Lefort reforça o argumento da força das armas, visto que, com esses dados, já podemos concatenar duas idéias. Pelo que Maquiavel já disse, e pelo começo do parágrafo que estamos analisando: virtú, fortuna, oportunidade e reputação; e agora, a força das armas. Assim, começamos a dar forma ao entendimento do texto: “Todos os profetas armados venceram e os desarmados fracassaram. Porque, além do que já disse...”

 

“...a natureza dos povos é vária, sendo fácil persuadí-los de uma coisa, mas sendo difícil firmá-los na persuasão” ― Há uma particularidade nesse contexto, porque trata da natureza humana, expressa como que dos povos. O alerta de Maquiavel a este ponto, é para que o Príncipe fundador se atente as expectativas dos homens que o servem. Pois só o discurso do Príncipe não lhes firma nos seus propósitos. Pois quem deseja instituir uma nova ordem de coisas, “suscita a inimizade de todos os que são beneficiados pela ordem antiga, e é defendido tibiamente por todos os que seriam beneficiados pela nova ordem ― falta de calor que se explica em parte pelo medo dos adversários, que têm as leis do seu lado, e em parte pela incredulidade dos homens. Estes, com efeito, não acreditam nas coisas novas até que as experimentem; portanto, os adversários, todas as vezes que podem atacá-las, o fazem com empenho, e os que as defendem, defendem-nas tepidamente...” (O Príncipe, Cap. VI, § 5). No parágrafo seguinte, que já foi apresentado acima, Maquiavel dará o desfecho necessário ao problema, perguntando se quem está prestes a instituir uma nova ordem, pode fazê-lo sozinho, pelas suas próprias forças. Ora, se é fácil persuadi-los, para firmá-los na persuasão será preciso impor-se pela força.

 

“Convém, pois, providenciar para que quando não acreditarem mais, se possa fazê-los crer à força.” ― Para confirmar essa proposição, Maquiavel usará um exemplo de seu tempo: “Isso aconteceu em nossos dias ao frei Gerônimo Savonarola, cuja nova ordem perdeu-se inteiramente quando a multidão começou a desacreditá-lo, e ele não achou modo de manter firmes seus seguidores, nem maneira de fazer crer aos descrentes.” (Cap. VI, § 7). Claude Lefort enriquece o contexto dizendo que “Savonarola denunciava os insensatos e malvados que negavam ser possível governar com o pater noster e pretendia tirar do Antigo e do Novo Testamento a prova de que as cidades sempre tinham sido salvas pela prece; segundo Maquiavel, insensato é aquele que se fia na prece e se esquece de que Moisés estabeleceu seu reino pela força;” (O Pensamento Político Clássico, “Sobre a Lógica do Poder”, Claude Lefort, p. 46). “Convém, pois, providenciar”, ou seja, que a reputação do Príncipe, a sua autoridade sobre seus súditos esteja de tal forma enraizada, “para que quando não acreditarem mais”; se por qualquer motivo se alastre no seio do povo desconfianças e dúvidas, o Príncipe “possa fazê-los crer à força” ― virtú que ofereça vigor tal que se antecipe à fortuna e que pelas qualidades elevadas do Príncipe, seja ele capaz de se agarrar a Ocasião, agindo conforme as oportunidades que lhe aparecem. E que sua reputação, agindo no imaginário de seus súditos, lhe proporcione a energia necessária para mantê-los firmes na nova ordem das coisas, fazendo-os crer à força de seu poder ― a inteligência da força e a força das armas ― relegando ao Príncipe, Potência para realizar seus desígnios. Lefort vai chamar esses novos conceitos de “Teoria da Ação”, conceito este que se implementa “no lugar onde outrora o pensamento se assegurava com a presença de uma ordem divina ou natural.” (O Pensamento Político Clássico, “Sobre a Lógica do Poder”, Claude Lefort, p. 47).É assim que Maquiavel se interpõe entre as antigas teorias e seus novos conceitos. Trazendo à tona o turbilhão da realidade das coisas, dizendo que, todos que se prestaram ao serviço de escrever sobre os Estados, imaginaram-nos de tal modo que nunca existiram. O filósofo, então, partindo da experiência dos antigos e daquilo que presenciou nos seus dias, se fixou na história pela coragem das suas idéias, e pelo reconhecimento da realidade das relações políticas de Estado, que se dão, não menos, no campo da ação, contrapondo-se incasavelmente ao arrastar-se imprescindível dos tempos.

Existência e Percepção

 

Sobre os fundamentos do imaterialismo de Berkeley no seu empirismo descritos no
“Tratado sobre os princípios do conhecimento humano” (Berkeley, G.)


Raulison Mendonça – Estudante de Filosofia UFPR



“Oh Tolo! Como é possível não sentir a vida?
Já sentiu intensamente a tua respiração?
Não me explique a complexidade da corrente,
Deixe fluir o sangue e ore para que não pare.
Frenética, impaciente, estressada e envolvida;
Rolo-compressor, bola-de-neve, vício-louco, roda-viva!
É a "sub-existência" que ser torna incoerente,
E a "pura-existência"... perdida!”

 

Não seria difícil afirmar que os homens, em sua maioria, gozam de plena confiança nos sentidos. Decorre daí que, não só homens, mas qualquer animal se firma nos sentidos que lhes são conferidos. A que distância a fera se posicionará de sua presa para que esta não escape? Um cão se utilizará do faro para encontrar sustento? Que artimanhas um morcego usará para voar diligentemente às cegas? – Os sentidos, visto que se encontram em milhares de seres viventes, não condicionam o homem a estar à frente dos demais animais. Logo, perceber deve estar muito além de se utilizar dos sentidos. Quantos sabem da própria “sub-existência”, e onde está a “pura-existência”? Perceber humanamente é relacionar as impressões do mundo, e a partir delas formular, compor, subtrair, dividir e agir segundo as muitas ligações só possíveis ao homem. Existir, para Berkeley, se não o é, deveria ser a sublime percepção.

Fundamentar um princípio, encontrar razões tais para que este firme as bases de uma argumentação filosófica é um trabalho senão árduo, complexo e difícil. No “Tratado sobre os princípios...”, Berkeley, além de apresentar o seu imaterialismo, trava uma luta contra as idéias abstratas e os abusos da linguagem da parte dos (sábios) responsáveis pela evolução do conhecimento humano. Mas esse embate não deixa de ser uma preparação para que o leitor faça um correto julgamento do que será apresentado. No último parágrafo da introdução ele diz: “... Desse modo lhe será fácil descobrir a verdade ou falsidade do que digo. Não correrá perigo de as minhas palavras o iludirem e não sei como pode ser levado a errar considerando as suas próprias idéias, nuas e sem disfarces”. O que Berkeley talvez não imaginou, ou pensou mas ignorou por estar agindo de muita boa fé, é que para a retórica, não há outro recurso senão o de hábeis palavras e intenções de persuasão. Não seria isso também seduzir por palavras? Se alguém está tomado das convicções que lhe absorvem, será de todo modo justo que se empreguem artimanhas para persuadir. E mais, é a linguagem o caminho encontrado pela filosofia para registrar seus raciocínios, sejam materialistas ou imaterialistas, ou sejam eles com propósitos ou sem. Ainda assim, o filósofo usa uma explicação muito peculiar para convencer o leitor de que as idéias abstratas só foram possíveis pelo mal uso da linguagem. No parágrafo 19 da introdução ele diz: “Mas para esclarecer como as palavras produziram a doutrina das idéias abstratas, observe-se que na opinião geral a linguagem só tem por fim comunicar idéias, e cada palavra significativa representa uma idéia”. A partir deste ponto, desta definição, podemos começar a entender onde Berkeley irá fundamentar o seu imaterialismo. Antes de chegar lá, vamos primeiro entender como o filósofo pensa a respeito de uma palavra que representa uma idéia.

Procuremos um palavra de fácil visualização: “maçã”. Mesmo que a maçã não esteja visível aos olhos, ela pode ser representada na mente. Ter a idéia de uma maçã é imaginá-la. Mas há maçãs pequenas, médias e grandes; maças verdes, vermelhas e roxas; e mais uma série de variedades existentes nas maçãs. O que Berkeley explica é que ter uma idéia de maçã não é ter uma idéia geral, ou uma idéia abstrata de maçã: nem pequena nem grande, nem verde nem vermelha e assim por diante. Procure imaginar uma maçã sem essas qualidades, apenas uma idéia geral de maçã e logo perceberá que excluindo as impressões que já tivemos de todas as maçãs, não sobrará maçã alguma. É por esse raciocínio lógico que Berkeley julga “ter mostrado a impossibilidade das idéias abstratas”. Argumentos esses muito próprios e convincentes.

As impressões do mundo só chegam até o homem através da experiência que tem dele. E essa experiência só é  possível através dos sentidos: a forma da maçã, a cor, o cheiro, o gosto. Aqui já podemos caracterizar o empirismo de Berkeley, quando ele afirma no terceiro parágrafo do “Tratado sobre os princípios...”: “Todos concordarão que nem os pensamentos, nem as paixões, nem as idéias formadas pela imaginação existem sem o espírito; e não parece menos evidente que as várias sensações ou idéias impressas nos sentidos, ligadas ou combinadas de qualquer modo (isto é, sejam quais forem os objetos que compõem), só podem existir em um espírito que as perceba”. É neste ponto que o filósofo define a idéia de existência aplicada a coisas sensíveis. Digo que algo existe porque o vejo e sinto; digo que há um odor porque alguma coisa exala um cheiro; há um som porque ouviu-se algo. Logo, o ser desse algo, ou dessa coisa, é ser percebido.

Partindo desse mundo sensível, Berkeley também diz quem o percebe, e o chama de mente, espírito, alma ou eu. Assim, se algo só é percebido por um espírito, e as sensações remetem sempre as análises deste, tudo o que existe, existe para esta mente, para este espírito. Aí está fundamentado o imaterialismo de Berkeley. Uma existência só é possível se há uma interação dos sentidos com o mundo, e se essas impressões são reveladas ao espírito, sendo este mesmo o único que as percebe.

Uma idéia, uma coisa ou algo só existe se forem percebidas pelo espírito. Daí a paráfrase: Existência e Percepção.

 

 

Características dos Princípios de Razão Suficiente

 

Sobre a quádrupla raiz dos princípios, referenciadas no primeiro tomo do livro
“O mundo como vontade e como representação”, de Arthur Schopenhauer
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Raulison Mendonça – Estudante de Filosofia UFPR

 

Quem se aventura a ler “O mundo como vontade e como representação” logo nas primeiras tentativas de inserção ao mundo filosófico, encontrará já nos primeiros capítulos referências do próprio autor a um trabalho anterior, um ensaio chamado “Sobre a Quádrupla Raiz do Princípio de Razão Suficiente”, tese que o doutorou na Universidade de Berlim em 1813. Schopenhauer, no “O mundo...”, diz: “No meu ensaio sobre o princípio de razão mostrei detalhadamente como qualquer // objeto possível está submetido a esse princípio...”, em outro momento: “Pressuponho aqui constantemente como conhecido e sempre presente ao leitor tudo o que lá (ensaio sobre o princípio de razão) foi dito, pois se lá já não houvesse sido dito, teria aqui o seu lugar necessário”. Parafraseando a filosofia, é certo que o estudo do referido ensaio, para Schopenhauer, é uma necessidade a priori para a leitura do “O mundo...”. Para nós, brasileiros, isto é um problema, pois não há tradução da tese sobre a quádrupla raiz em língua portuquesa. Porém, vê-se aí um fundamento lógico à sugestão de Schopenhauer, que organizando o seu pensamento, optou por ordenar uma cronologia prática para o conhecimento de sua filosofia. Lógica essa, tão clara e óbvia, não é utilizada nos estudos filosóficos na Federal do Paraná (UFPR). Um aluno do primeiro semestre, iniciando ainda a sua aventura filosófica, não recebe uma preparação consensual, coerente e cronológica. É como a dificuldade matemática de se resolver um equação de segundo grau sem receber os preparos anteriores de equações mais simplificadas. Mas o espaço aqui requer outras reflexões, vamos a elas.

Farei neste artigo um resumo dos quatro princípios de razão suficiente. No entanto, é preciso antes definir a que se refere esses princípios. Após afirmar que “O mundo é minha representação”, Schopenhauer evidencia uma divisão para tal representação em Sujeito e Objeto. O sujeito, diz o autor, é “aquele que tudo conhece mas não é conhecido por ninguém”. É como o olho que tudo vê mas nunca é visto. Diz ainda, “Tudo o que pertence e pode pertencer ao mundo está inevitavelmente investido desse estar-condicionado pelo sujeito”. É a condição que pressupõe o conhecimento do mundo, o olhar único do sujeito. Se algo existe, existe para este olho que vê. Logo, o objeto existe para o sujeito num espaço e tempo determinados. Ligando os pontos, o sujeito é aquele que conhece, o objeto é quem se deixa conhecer. Ponderada a classificação desses dois fenômenos, sujeito e objeto, Schopenhauer se volta a tese dos princípios de razão suficiente, fazendo várias referências no “O Mundo...”, para validar esses princípios como “forma necessária e universal do objeto...”, nas palavras de Jair Barboza, que também diz: sobre a quádrupla razão “Trata-se de um único princípio porém quadruplamente enraizado, isto é, dando conta de quatro diferentes classes de objeto para o sujeito, classes estas que delimitam o mundo da experiência e da ciência.”

O presente agoniza nesse instante, o futuro não demora
            Não se entra no mesmo rio duas vezes
           
A correnteza do tempo leva o tempo embora
           
Não és mais a mesma depois de cada palavra minha
           
Assim como o tempo te amadurece no seio da flor
           
O cair da pétala rosada é pauta do caminho que caminhas

Nos versos acima, proponho uma explicação para o DEVIR, que nada mais é do que essa temporalidade, essa constante mudança universal, esse cair das pétalas, esse renovar e florescer e fenecer, a perenidade de algo ou alguém. Utilizaremos essas metáforas para entender o primeiro princípio, que é o “Princípio de razão de devir”.

Na base deste princípio está o tempo, que na explicação de Schopenhauer é aquele “que aniquila o precedente, seu pai, para por sua vez ser de novo rapidamente aniquilado” (a correnteza do tempo). Para o autor, o tempo é o reconhecimento da mais simples forma do princípio de razão “em meio à diversidade de suas figuras”. Ele ainda aplica suas deduções de nulidade do tempo (passado e futuro – tão nulos quanto um sonho, e depois presente – um limite entre passado e futuro, portanto, também nulo), ao espaço, concluindo que “tudo que resulta de causas e motivos possui apenas existência relativa”. O cair da pétala rosada é pauta do caminho que caminhas, aí está o tempo, o espaço e a causalidade, ou seja, o DEVIR.

 

Princípio de razão de conhecer”. Neste princípio, Schopenhauer faz uma curiosa comparação, aliás, muito acertada e lógica, que é afirmar que o entendimento é comum tanto no homem quanto nos animais. Porém, os conceitos formados a partir do entendimento, das intuições que se fixam e se cruzam no consciente, e que a partir dessas representações abstratas forma esses conceitos, isto sim, é único do homem, que tem por princípio uma razão do conhecer. Jair Barbosa, que é uma autoridade quando se trata de Schopenhauer afirma que o “O princípio de razão do conhecer, em última instância,  fornece o fundamento dos juízos da experiência e da ciência, rege a linguagem e a sua pretenção de expressar verdadeiramente o mundo”.

 

O “Princípio de razão de ser” está inserido no conceito do primeiro princípio, que é do devir, pois resgata as intuições das formas do sentido externo e interno dadas a priori, o espaço e o tempo. Se o devir expressa a contínua mudança do mundo, tendo como terceiro igrediente a causalidade, neste princípio de razão de ser valem somente o espaço e o tempo que é a parte formal das representações. O tempo, que aniquila e é aniquilado, que precede e é precedido, forma a partir desta lógica a necessidade e a universalidade da aritmética e da geometria. Já o espaço,  que é a geometria, é a forma isolada das figuras na natureza. Jair Barbosa conclui: “O espaço é secundário em relação ao tempo, pois este é a forma primária do ser-consciente, é a forma do sentido interno, onde o sentido do mundo se constitui. Isto se traduz nas vezes em que a própria geometria precisa ser temporalizada e suas figuras são traduzidas em fórmulas numéricas”.

 

Princípio de razão de agir”. “É a vontade de mexer, que mexe. É a vontade de parar, que pára”. Quantas vezes já não ouvimos: “Eu não consigo parar de comer chocolate”, “Não consigo esquecer aquele(a) garoto(a)”, “Não quero mais sofrer”, “Quero ser feliz” etc ? – Pois bem, o querer e suas motivações estão no centro deste quarto princípio. Talvez o que não se tenha pensado, é que as motivações, aquelas que impulsionam o agir, podem ser resultados dos três princípios anteriores, ou seja, intuições a priori (espaço e tempo), o devir (causalidade) e o ser (juízos). A consciência, abstraindo o resultado das representações, motivados por essas faculdades e princípios (negando-os porque estão abstraídos), cruzam informações que formam raciocínios que vão além das vontades fisiológicas, como nos animais. Como denomina Schopenhauer, esse milagre do eu, desse ser que quer e age, é uma faculdade exclusivamente humana. É possível estar com fome e não querer comer, é possível estar com sede e negar-se a satisfação da água. É essa vontade que impera no homem, que o faz agir conforme as leis de motivação, resultados de inúmeros e infinitos processos da consciência do sujeito que quer. “Quando submergimos em nosso interior, encontramo-nos como pura volição irrompendo em diversos graus, a envolverem afetos e sentimentos” (Schopenhauer).

 

Aqui fica o nosso pedido para que o nosso grande Jair Barboza, que traduziu “O mundo como vontade e representação”, também se dedique ao mister da tradução da tese de doutorado do filósofo. Com certeza a comunidade filosófica, tendo acesso a esses escritos poderão aprimorar o conhecimento e o entendimento da obra magna de Arthur Schopenhauer.

Fisiologia... ou Filosofia Mediana

 
Baseado na teoria dos "Processadores de Alimentos" de Vitor Wielewski...
 
O ciclo da vida...
 
Nasce
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--> Come
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--> Caga
--> Caga
--> Caga
 
...
...
...
 
 
Cresce
--> Come
--> Caga
--> Come
--> Caga
--> Come
--> Come
--> Come
--> Come
 
 
...
...
...
 
 
Amadurece
--> Come
--> Bebe
--> Come
--> Caga
--> Bebe
--> Bebe
--> Bebe
--> Bebe
 
 
...
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...
 
 
Envelhece
--> Come
--> Bebe
--> Caga
--> Come
--> Bebe
--> Caga
--> Caga
--> Caga
 
 
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Morre
Lápide: Aqui jaz um grande homem que comeu, bebeu e cagou!
 
 
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   Que valeria um homem se o bem principal
   e o interesse de sua vida consistisse
   somente em dormir e comer?
   Não passaria de um animal.
   Sem dúvida alguma, aquele que nos criou
   com uma tão vasta inteligência
   que abrange o futuro e o passado,
   não nos deu faculdade e a divina razão
   para que em nós se cobrisse de bolor por falta de uso.
   Seja, agora,
   esquecimento bestial ou algum tímido escrúpulo
   de pensar nas conseqüências com excessiva minúcia
   (reflexão esta que de quatro partes
   tem uma só de prudência e sempre três de covardia),
   não compreende por que vivo ainda para dizer:
   "Isto ainda está por fazer", visto que tenho motivo, vontade, força e meios para ir avante.
   (Shakeaspeare)
 
 
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